Como criar um Monstro

Os hipermercados, juntaram o padeiro, o peixeiro e a leitaria todos no mesmo local, com vantagens inegáveis para o nosso conforto. Pelo caminho, talvez alguns empregos estáveis tenham desaparecido e os novos postos de trabalho dos peixeiros, leiteiros e padeiros se tenham transformado em actividades descartáveis e sem grande prestígio social. Valeu a pena?

Como criar um monstro autofágico que se auto-destrói
Como criar um monstro autofágico

A atual relação entre os diversos intervenientes na cadeia alimentar nos meios urbanos é um bom exemplo de como, do nada se pode criar um monstro autofágico, que se devora a si próprio e se auto-destrói, ao destruir aqueles que lhe servem de suporte.

Quando surgiu a lógica da grande superfície comercial, a ideia era benévola e vantajosa para o consumidor e até para o produtor que assim poderia chegar a mais pessoas com os seus produtos.

Mas o sucesso da grandes superfícies, em Portugal, foi de tal ordem que provocou a erosão de quase todo o pequeno comércio local.

Os pequenos mercados e lojas de bairro, onde estávamos habituados a fazer as nossas compras, foram desaparecendo, do mapa, um-a-um, quase sem darmos bem conta disso - com o alto patrocínio, dos autarcas e dos mesmos consumidores que agora falam em gentrificação, a propósito do turismo, mas nessa altura não equacionaram, como colectivo social, a perda de qualidade de vida - com a deslocação massiva de pessoas, do centro para a periferia das cidades.

Os centros urbanos das cidades e a gentrificação.

Como criar um monstro autofágico que se auto-destrói
Fotografia da baixa do Porto em 2008

Os centros urbanos, das cidades, são o que escapou da gentrificação que ocorreu em Portugal nas últimas décadas, enquanto todos nós passeávamos alegremente nos Shoppings da moda e comprávamos a modernidade, nas periferias que agora renegamos.

Agora, que os estrangeiros se interessaram pelo que nós alegremente abandonamos, agitamos bandeiras a exigir um pedacinho dos nossos queridos centros históricos, nas "nossas" cidades e gritamos na praça pública, que os turistas estão a roubar e a destruir os centros históricos das nossas cidades!

A sério?

Era assim o cruzamento da Rua de Santa Catarina, com a Rua Formosa em 2008!

Agora não faltam os casos particulares de "pessoas espoliadas" dos seus direitos ao centro da cidade, mas foram mesmo os turistas que nos roubaram a qualidade de vida, ou fomos nós que a deitamos pela janela fora? 

Do Super para o Hiper e do Hiper para o Shopping.

Do Super para o Hiper e do Hiper para o Shopping.
Do Super para o Hiper e do Hiper para o Shopping.

As primeiras superfícies comerciais surgiram nos centros urbanos, mas depressa quiseram crescer. Os centros urbanos não tinham espaço, nem condições, para projectos megalómanos. 

Os supermercados, foram deslocalizados para fora do centro das cidades, de forma a terem espaço para os seus projectos, em escala industrial.

Passamos da fase dos Supermercados nos centros urbanos, para a fase dos Hipermercados nas periferias.

Na periferia havia espaço, muito mais barato e disponível, por isso rapidamente voamos dos Hipermercados nas periferias, para os Shopping Centers.

Os Shopping Centers, tornaram-se os espaços âncora do um novo modelo de vida e de cidade. Foram vendidos como um modelo de modernidade e bem-estar social, por políticos e autarcas.

A população, essa estava inebriada com esta miragem de bem-estar e modernidade, nas suas cidades!  

Os centros das cidades deixaram de ser atraentes e esvaziaram-se.

Sobraram os velhos, os mais pobres e os indigentes que, mesmo assim, ansiavam por sair dos centros das cidades, cada vez mais desertificados, degradados e inseguros, por falta de investimento público e privado.

As lojas, estavam vazias e fechadas. As casas dos centros urbanos, sem investimento dos senhorios, estavam em más condições e eram muito mais desconfortáveis que as novas e modernas habitações da periferia, perto dos Shopping Centers da moda.

Todos aspiravam a desfrutar desta nova onda de modernidade!

Foi por essa razão, que as habitações, as lojas e os monumentos, dos centros históricos nas cidades, se esvaziaram e degradaram...

A Modernidade de Betão, que tudo abandonou...

A Modernidade de Pladur e de Plástico
A Modernidade de Betão, que tudo abandonou...

Nas principais cidades do país, as quintas da periferia que antes abasteciam as mercearias da cidade, deixaram de ser necessárias e deram lugar a novos bairros de betão, com muitos prédios modernos e confortáveis, mas descaracterizados. 

As vacas que pastavam nos campos, foram deslocadas para edifícios, a que chamamos vacarias, porque os terrenos agrícolas, nas periferias, rendiam mais com a especulação imobiliária, do que com a produção agrícola e além disso, as grandes superfícies também exigiam outro tipo de estrutura produtiva agrícola.

As mercearias estavam a fechar e a população estava a ser educada para comprar fruta normalizada. 

Estávamos a entrar na CEE e na nova era da "normalização" da fruta, do leite e enfim, da nossa alimentação. Não havia espaço no mercado para a pequena exploração agrícola familiar.

Além disso, a modernidade também votou ao abandono os mercados e feiras tradicionais.

Um bom exemplo disso é o nome de um dos primeiro Hipermercados que recordo, em Braga. No limite da cidade de Braga, numa quinta onde costumavam pastar o gado, vi quase de um dia para o outro, desaparecerem as vacas e surgir um enorme hipermercado a que chamaram o "Feira Nova".

E este nome é simbólico! 

Representa bem a mudança de hábitos que se seguiu, com muitos de nós a abandonar do hábito de ir à feira, ou ao mercado do centro da cidade, para ir ao "Feira Nova".

E o sucesso foi tal, que este Hipermercado, cresceu, cresceu, cresceu...até se transformar num grande Shopping Center, o maior de Braga atualmente.

Quem vai ao Braga Parque, com toda aquela envolvente de acessos e de prédios, hoje não consegue imaginar, um enorme pasto verde, cheio de vacas leiteiras. Mas naquele caso, foi assim que a modernidade chegou àquelas pastagens.

Podia ter sido melhor? Podia!

Braga podia ser hoje uma cidade mais equilibrada e harmoniosa. Aquilo a que chamamos centro histórico de Braga podia ser bem maior, porque eu recordo-me de imensas casas antigas, bem interessantes, que foram arrasadas para dar lugar aos prédios que hoje desfeiam, e muito, a cidade. Mas Braga, curiosamente, ainda não sofre da febre do centro histórico, porque a cidade tem excesso de habitação e arrendar uma casa nesta cidade, é bastante fácil. 

Mas será que não fomos, também nós, normalizados? 

A Modernidade de Pladur e de Plástico
O board que à distância de uma campanha de Marketing, tudo normalizou e tudo uniformizou.

Tudo foi alicerçado na instalação de grandes superfícies comerciais, tudo-em-um, com uma política comercial e de marketing disruptiva e inovadora, mas agressiva, que atraiu lojistas do centro das cidades e compradores, fascinados com o conforto e a modernidade destes novos paraísos de consumo. Iniciou-se uma nova era de Modernidade, a que eu gosto de chamar a Modernidade de Betão!

Ganharam os autarcas, ganharam os construtores, ganharam os especuladores imobiliários, e ganharam os bancos. As grandes superfícies eram as estrelas da economia nacional, a salvação dos empregos e da pátria e transformaram-se em gigantes financeiros, com poder de decidir e ditar as tendências dos mercados.

Não tinham concorrência e tinham o apoio dos políticos e da população!

A Deslocação das pessoas e dos Empregos para a Periferia

A Deslocação das pessoas e dos Empregos para a Periferia
A Deslocação das pessoas e dos Empregos para a Periferia

A população urbana mudou e mudou-se de armas e bagagens para as novas e modernas habitações, em volta destes Espaços Âncora. 

Com esta deslocalização, e a criação de acessos privilegiados a essas grandes superfícies, a maior parte dos empregos foram também deslocados para a periferia dos centros urbanos e com eles as famílias também migraram para a periferia.

Isto contribuiu ainda mais para a desertificação e abandono dos centros urbanos, que se verificou nas últimas décadas.

A perda de qualidade de vida familiar e no emprego.

Pelo caminho, talvez alguns empregos estáveis tenham desaparecido e os novos postos de trabalho dos peixeiros, leiteiros e padeiros se tenham transformado em actividades descartáveis.

Trabalhar numa mercearia, não é tão monótono, nem provoca o mesmo stress que trabalhar na caixa de um hipermercado.

Além disso, as mercearias têm horários muito mais compatíveis, com a vida familiar, porque não há turnos até à meia-noite, nem aos domingos.

Mas a verdade é que, todos nós, estávamos tão inebriados com a modernidade, das grandes hiper-superfícies comerciais, tudo em um, que nunca mais nos lembramos da padeira que deixava o pão na porta, do peixeiro que buzinava à quarta feira, nem do Sr. Manuel da mercearia, a quem antes pedíamos para nos entregar as compras em casa, no final do dia.

Os hipermercados, juntaram o padeiro, o peixeiro e a leitaria todos no mesmo local, com vantagens inegáveis para o nosso conforto.

Pelo caminho, talvez alguns empregos estáveis tenham desaparecido e os novos postos de trabalho dos peixeiros, leiteiros e padeiros se tenham transformado em actividades descartáveis e sem grande prestígio social.

Por mais que as revistas cor-de-rosa gourmet, das grandes superfícies, nos queiram contar outra história - com imagens perfeitas de funcionários felizes, realizados e empenhados nas suas actividades - o que eu vejo e sinto quando estou na peixaria, na padaria ou na caixa do hipermercado, é o stress e a frustração, dos funcionários perfeitos da revista cor-de-rosa gourmet, para cumprir metas, por trás do seu sorriso pepsodent.

E não, não gostaria nada de estar no lugar deles, e até aposto que mal tenham oportunidade correm dali para fora!

Quem criou o monstro, foram os hipermercados?

Quem criou o monstro, foram os hipermercados?
Quem criou o monstro, foram os hipermercados?

Os próprios hipermercados, na sua ansiedade de crescer desmesuradamente, criaram um monstro, prejudicial até para eles próprios.

Superestruturas desnecessárias e complicadas de manter, com excesso de normalização e de certificações, para satisfazer todo o tipo de consumidores, até os mais caprichosos, que querem as batatas já descascadas e as maçãs já fatiadas em tirinhas prontas a comer.

Entre o desperdício de dinheiro em marketing e normalização de produtos, certificações, higienização e sofisticadas cadeias de frio e armazenamento de produtos, promoções e super-promoções, abastecer a sua mesa tornou-se um mau negócio até para as próprias grandes superfícies. 

Mas a culpa será das grandes superfíceis comerciais, tudo-em-um?

Ou será o monstro, uma criação colectiva?

Quem foi, na realidade, que criou este Monstro Autofágico?

Eu diria que quem criou o monstro:

  • foram os consumidores
  • foram as grandes superfícies
  • foi a corrupção
  • foram os autarcas
  • foram os políticos
  • foi o deslumbramento
  • foram os agentes imobiliários
  • foram as empresas de construção civil

O Monstro é pois, uma criação colectiva, de que nenhum de nós se pode orgulhar, porque todos contribuímos de alguma forma para a sua criação.

Todos fomos responsáveis pela perturbação do bem-estar colectivo dos cidadãos, sobretudo dos mais idosos que habitavam os centros urbanos das cidades, quando estas se transformaram radicalmente, com a deslocação massiva dos empregos e das famílias para as modernas periferias.

Mas os principais responsáveis foram, sem dúvida, os autarcas e os políticos que, salvo raras excepções, nunca equacionaram nada disto, enquanto orientavam o dinheiro dos contribuintes, para a criação das condições legais e dos acessos rodoviários privilegiados, que facilitaram a instalação de grandes superfícies comerciais, tudo-em-um e incentivaram a fuga das cidades, para as modernas periferias com acessos privilegiados.

Nova criação colectiva!

Nova criação colectiva!
Nova criação colectiva!

Resta-nos a esperança, de que no seu processo autofágico, o monstro não devore tudo, mas simplesmente desapareça tranquila e gradualmente, dando lugar a cidades e periferias mais equilibradas e a modos de vida mais saudáveis, do que os actuais, mas isto implica uma nova criação colectiva!

E algo está já a mudar, na forma como os consumidores questionam a sua falta de qualidade de vida ou a falta de qualidade da sua alimentação.

Esperemos que a próxima criação colectiva, não se traduza num novo Frankenstein.

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Mariana Barbosa

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